"A criação geme em dores de parto" (Rm 8,22)
Estamos vivendo num mundo voltado quase que totalmente aos valores que passam, mergulhados numa história humana, com suas belezas, mas limitada e passageira. Com isso, sentimos fortemente a necessidade de Profetas Verdadeiros que nos anunciem os valores permanentes da vida, mesmo que eles pareçam difíceis de serem entendidos e vividos.
Por essa razão, mais uma vez a Igreja nos propõe refletir sobre esse tema, tão antigo e tão novo, que é “Fraternidade e Vida no Planeta”, com lema “A criação geme em dores de parto”.
Faz-se de singular importância considerarmos o mundo como nossa própria casa, onde nos aconchegamos, com todos os outros humanos e as coisas, criaturas de Deus como nós. É em nós, nos outros e nas coisas que fazemos encontro com Deus - “razão principal de sua dignidade e vocação própria de todo ser humano” (São João da Cruz) - e, portanto, a criação é o nosso espaço de ser de Deus.
O refrão do hino da Campanha da Fraternidade 2011, baseado em Gêneses I, nos diz: “Olha, meu povo, este planeta terra: Das criaturas todas, a mais linda!, Eu plasmei com todo amor materno, Para ser berço de aconchego e vida” (Gn 1).
A criação nada mais é que uma prova concreta do amor de Deus por nós. Ele a fez com amor materno para que fosse berço e aconchego de vida. Mas então, por que existe destruição (o mal), do gênero humano, quanto das obras de Deus?
Para responder a essa pergunta, tomemos Santo Agostinho. Somos criados por um Deus que é Sumo Bem e n’Ele não existe o mal. Mas, ainda, de onde vem à destruição (o mal)?
Podemos por essa prerrogativa, afirmar que o mal e a destruição advêm da natureza humana, que tem em si presente o bem, vindo do Criador, e o mal, fruto da liberdade. Mas como ainda nos diz, Santo Agostinho “o problema em si não é fazer o mal, mas gostar de fazer o mal”.
Por isso, libertemo-nos do mal e refaçamos nossas vidas no amor e na justiça. Partilhando o que temos. “Tendes a Eucaristia, o que quereis mais?” (São Pedro Julião Eymard).
Nossa mãe terra é criatura viva, também respira, se alimenta e sofre. É de respeito que ela mais precisa; sem nosso cuidado, ela agoniza e morre. Mais profundamente, precisamos, ver nesta terra, nossos irmãos. São tantos que a fome mata e a miséria humilha.
Rezando esta campanha precisamos, criar uma nova aurora, fazer com que o sol da liberdade surja no coração das pessoas e indicar: “Com Maria, ide depressa para uma nova terra” (Maristas). Sonhar um mundo mais humano, sem tanto lucro empobrecido e mais partilha, de pão e de vida!
Para isso, podemos rezar com toda a Igreja, que unida em sinal profético, entoa com júbilo, louvores e preces ao Deus Altíssimo com a oração da Campanha da Fraternidade deste ano: “Senhor Deus, nosso Pai e Criador. A beleza do universo revela a vossa grandeza, A sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas, E o eterno amor que tendes por todos nós./ Pecadores que somos, não respeitamos a vossa obra, E o que era para ser garantia da vida está se tornando ameaça. A beleza está sendo mudada em devastação, E a morte mostra a sua presença no nosso planeta./ Que nesta quaresma nos convertamos E vejamos que a criação geme em dores de parto, Para que possa renascer segundo o vosso plano de amor, Por meio da nossa mudança de mentalidade e de atitudes./ E, assim, como Maria, que meditava a vossa Palavra e a fazia vida, Também nós, movidos pelos princípios do Evangelho, Possamos celebrar na Páscoa do vosso Filho, nosso Senhor, ressurgimento do vosso projeto para todo o mundo. Amém”.
Devemos ser fraternos com a vida no planeta e ajudar a criação a não mais gemer “em dores de parto”, pois devemos renascer com ela no amor, pelo amor e para o amor. Pois “no fim da vida seremos julgados pelo amor que um dia plantamos” (São João da Cruz).
Para finalizar, cito um dominicano medieval, Mestre Eckhart (1260-1328), que apesar de ter vivido e postulado sua teoria na Idade Média, ela se apresenta totalmente atual, nessa esfera de busca da totalidade.
Num poema indiano que ilustra do universo eckartiano, podemos refletir a importância da consciência da totalidade da criação, considerando-a totalidade de Deus:
“Deus dorme na pedra
Respira na planta
Sonha no animal
E desperta no homem”
(Poema Indiano)
Com ele, somos convidados a agradecer, louvar e não nos afastarmos do Deus-Amor-Criador, que nos recria e nos refaz a cada amanhecer. Para isso, ajude-nos Deus.
Adriano Cézar de Oliveira,
Licenciando em Filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA)
em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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